Alguns poemas, do livro "Idas e Vindas", escritos entre 1990 e 1998.sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
- Idas e vindas.
Um dia,
sem qualquer explicação,
a vida nos tira do lugar costumeiro
nos afasta dos amigos
nos coloca num outro local
distante e desconhecido
e nos aproxima de novos amigos.
Num outro dia,
sem a gente esperar,
a vida nos avisa que já é hora, de novo,
de mudarmos de lugar
de trocarmos de amigos.
Mas não diz pra onde
nem pra junto de quem.
E a gente,
na nossa simples ignorância,
cada vez entende menos.
Rio Claro - Florença, 21.12.93.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
- Artigo de luxo.
Às vésperas do século vinte e um
já não temos tempo para o amor!
Temos que nos preocupar
com a economia
com a inflação
com o desemprego
e com a violência:
assalto
seqüestro
e com a corrupção
e com as mordomias.
E o amor?
O amor fica para terceiro
quarto ou quinto planos.
O amor é coisa para desocupado
para quem acertou a sena
para quem já se aposentou
para quem ainda consegue sonhar.
O amor é coisa do passado
é supérfluo
é descartável.
O amor é artigo de luxo.
S.Paulo-Tubozin-07.03.91.
- Aritimética simples.
Aos vinte e cinco anos
afirmei categoricamente:
- Metade da minha vida útil
é já passada.
Concluo, hoje, então,
que tenho apenas
mais quatro anos
de vida útil pela frente.
São Paulo-Tubozin-09.04.91.
- Dúvidas e dúvidas!
Sinto-me angustiado.
Por quê?
Sinto-me pressionado.
Por quem?
Sinto-me acuado.
Por que motivo?
Quero sair
Quero partir
Quero fugir,
correndo,
o mais depressa possível.
Para onde?
Até quando?
E depois?
S.Paulo - Angélica, 12.11.91.
- Esperando o depois.
Quem me vê sentado nesta moderna e confortável poltrona
ao lado do grande vitrô do décimo segundo andar
de um luxuoso edifício de uma região nobre da cidade,
horas a fio, estático,
olhos fixos em lugar nenhum
jogando a fumaça do cigarro para o lado de fora
imagina, evidentemente, que estou pensando em algo sério
que faço planos, que traço metas e objetivos a curto prazo
ou que, no mínimo, penso em alguém ou em alguma coisa.
Mas nada disto me preocupa.
Se já não sou tão jovem para sonhar acordado
também ainda não sou tão velho para apenas esperar a morte.
Não sonho acordado
Não faço planos
Não acredito que o fim esteja próximo.
Se olho fixo para a televisão
sem ver e sem prestar atenção
é apenas para manter os olhos em atividade;
Se observo detidamente os prédios a minha frente
é porque os mesmos são intransponíveis à visão;
Se busco demoradamente os contornos verde-escuros
dos morros que circundam a cidade
e separam as áreas dos cidadãos e dos miseráveis
é apenas para testar minha atual acuidade visual.
Não faço distinção entre os rostos e as figuras
que me passam pela mente
muito menos busco alguém em especial;
Não sinto a diferença
entre o piso seguro do concreto que me sustenta
e o vazio do espaço aberto do além-janela
nem percebo a transição
entre a luz opaca do sol poente
e a luz artificial, multicolorida, que vai iluminando
prédios, pessoas e o asfalto lá embaixo;
Não me preocupa saber
se é segunda ou sexta-feira
se são dezoito ou vinte e quatro horas;
que o tempo, enquanto cronologia,
já não tem qualquer importância para mim.
Deixem-me, portanto, escolher o meu jeito de ser
Deixem-me, por favor, observar apenas a passagem do tempo
Deixem-me, afinal, continuar aqui, sozinho, em paz,
esperando.
Apenas esperando o depois.
S.Paulo-Angélica-12.11.91.
- Lições da vida.
O sofrimento ensinou-me
a não mais sentir dor;
A solidão ensinou-me
a não mais perceber o vazio;
A desilusão ensinou-me
a não mais ter esperanças;
O tempo ensinou-me
a não mais ter pressa;
A distância ensinou-me
a não mais me preocupar com limites;
A indiferença ensinou-me
a não mais ter paixões;
A privação ensinou-me
a não mais ter ambições;
A discriminação ensinou-me
a não mais crer na igualdade;
A injustiça ensinou-me
a não mais esperar por recompensas;
A vida, enfim, ensinou-me
a buscar a auto-suficiência.
S.Paulo - Tubozin, 13.12.91.
- Solidão II.
Ninguém procura a solidão,
acostuma-se a ela;
Ninguém quer a solidão,
mas não vê, muitas vezes, outra alternativa.
Rio Claro - BRT, 16.09.92.
- De novo, a chuva.
Pela primeira vez,
na segurança e na proteção
de um quinto andar de edifício
numa cidade estranha,
observo a chuva cair;
a mesma chuva
que tanto e sempre me tocou.
Daqui do alto eu posso ver
as centenas de telhados vermelhos
o asfalto negro
o verde da vegetação;
todos úmidos e imóveis.
Não vejo pessoas
não vejo animais
não vejo movimento;
mas eu sinto o cheiro da terra molhada
mas eu sinto a existência da natureza
mas eu sinto a presença do passado.
A cidade do interior
As casas baixas e cercadas de árvores
As ruas estreitas, vazias, silenciosas
A chuva compassada e tristonha
Uma sacada no alto
onde um homem
observa tudo
sozinho
imóvel
imutável.
Rio Claro - Avenida 4, 15.09.92.
- Contrastes.
A minha frente,
tudo faz lembrar um retorno à natureza.
Um grande lago de águas límpidas
repleto de peixes se movimentando,
uma fonte entre pedras,
que nunca pára de jorrar,
um vasto e verdejante gramado
com várias e copadas árvores,
e um céu azul a perder de vista.
Tudo isto envolvendo uma ala de escritórios
numa grande área fabril
implantada numa cidade de interior.
Tudo refletindo beleza, conforto
e artificialidade, ao mesmo tempo.
Encontro-me preso numa maravilhosa sala
revestida de concreto
observando a tudo através dos amplos vidros fumê
incrustados numa pesada armação de aço escovado.
O lago e a fonte são artificiais
Os peixes são decorativos e criados em viveiros
As árvores foram implantadas simetricamente
O céu, apesar do azul, já está carregado de poluição
e a cidade de interior,
infelizmente,
não é a minha.
Rio Claro - BRT, 15.09.92.
- Prazeres da vida.
Não tenho sequer um amigo
Não visito nem sou visitado
Não pratico qualquer esporte
Não leio nem escrevo
Não vou a cinema, teatro ou campo de futebol
Não sinto o mesmo prazer nas longas viagens
Meus pais e meus irmãos estão cada vez mais distantes
Tio Zebinho, há mais de ano que não falo.
Tenho hoje
apenas duas atividades;
dois prazeres se assim posso chamar:
Trabalhar e fumar.
O trabalho, duro e constante,
preenche grande parte do meu tempo
e possibilita manter o bom padrão de vida
a que acostumei minha família.
O cigarro, caro e prejudicial
preenche o restante do tempo
e me impede de pensar.
Rio Claro - BRT, 04.03.93.
- Fato a se consumar.
Sinto que a qualquer momento
romper-se-á, definitivamente,
o último elo que me prende à realidade.
Então eu me desintegrarei por completo,
perderei o pouco que sobra
da minha identidade.
Terei cumprido, então,
totalmente,
a minha pena.
Rio Claro - BRT, 04.03.93.
- Questão de memória.
Como sempre,
acordei cansado,
com o corpo dolorido.
Sinto que tive um sono agitado.
Sinto que sonhei a noite toda
mas não consigo
e não tenho conseguido nos últimos tempos
lembrar-me se quer de uma passagem do sonho.
Minha memória se esgotou
ou está me poupando.
S.Paulo - CAB, 23.09.93.
- Voltar pra onde ?
O homem não nasce nômade
O homem não nasce sonhando com outras terras.
O homem vem ao mundo
respirando o ar a sua volta.
O homem aprende a andar
sentindo o chão por onde pisa.
O homem cresce
amando a terra que o viu nascer.
Mas um dia,
a escassez
a necessidade
a perseguição
a opressão
obrigam-no a partir,
muitas vezes muito jovem,
para um lugar estranho
na busca de melhores oportunidades.
O homem acaba se ajustando
e aceitando a nova terra
como sendo a sua terra
até o dia em que a saudade aperta
e o homem se esquece das dificuldades passadas
e olha para cima
e bate no peito
e grita bem alto:
- Eu vou voltar!
E o homem deixa tudo que está fazendo
e abandona tudo o que construiu
E volta feliz para a terra natal.
E de novo na sua terra,
o homem pisa descalço na terra nua
para sentir de novo o seu próprio chão.
E o homem respira fundo o ar da madrugada
para sentir de novo o seu próprio ar.
Mas muito depressa o homem percebe
que já não é possível viver ali
sem as oportunidades e
sem as vantagens do mundo exterior:
o homem cresceu muito
ou sua terra se apequenou.
E o homem parte de novo
para terras ainda mais distantes
para terras ainda mais estranhas.
E tantas vezes o homem parte
E tantas vezes o homem retorna
enquanto ele ainda é jovem
enquanto ainda tem boa memória
enquanto ainda tem forças
para bater no peito
e para gritar alto:
Eu vou voltar!
Mas chega um dia,
depois de muito buscar o lugar ideal,
em que o homem já está velho
em que o homem já está cansado
num lugar muito distante
estranho e hostil;
sem amigos e sem parentes
sem oportunidades e sem planos.
O homem tenta bater no peito
mas seu braço já não obedece;
O homem tenta gritar bem alto
mas sua voz já não tem força.
E o homem sente que deve partir
E o homem decide que vai voltar
Mas tantas foram as suas partidas
mas tantas foram as suas voltas
que o homem já não sabe
qual é a sua verdadeira terra
e o homem se pergunta, então,
Voltar para onde?
Rio Claro - Florença, 20.06.94.
- Por quem chorar ?
Jamais chore
por uma pessoa idosa que se foi;
principalmente quando você sabe
que ela sofreu muito durante a vida.
Reserve suas lágrimas
para uma pessoa jovem
com toda a vida pela frente
que você sabe
que ainda terá muito sofrimento
e, principalmente,
que você nada mais poderá fazer por ela.
Santos - Apto, 30.08.94.
- Talvez por isto.
Meus pais ensinaram-me muita coisa útil
e muita coisa correta.
Ensinaram-me a ser honesto
Ensinaram-me a trabalhar
Ensinaram-me a respeitar a Deus e ao próximo
Ensinaram-me a ser solidário e a dividir o pão.
Meus pais, por outro lado,
não me mostraram as maldade da vida
não me ensinaram a me aproveitar das situações
nem a brigar por meus direitos.
Talvez daí advenha minha falta de ambição
Talvez por isto eu me contente com tão pouco.
Meus pais transmitiram-me os seus pensamentos
e, principalmente, os seus sentimentos;
o sentimento de pena
o sentimento de piedade
o sentimento de compreensão
o sentimento de perdão.
Mas os meus pais não me transmitiram
o sentimento de desconfiança
nem o espírito de vingança.
Talvez por isto eu não veja culpa
nem maldade em nenhum daqueles que me prejudicam.
Santos - Apto, 30.08.94.
- Distanciamento.
Daria tudo para saber
onde foi parar a menina
que adormecia em meus braços
e que me obrigava a levá-la todas as noites,
no colo, para a sua cama.
Daria tudo para saber
onde está a menina
que animava e comandava as festas;
que decorava a casa
e que escolhia os presentes de Natal.
Daria tudo para saber
onde estão, afinal
aquele brilho nos olhos
aquelas mãos agitadas
aqueles passos miúdos e ligeiros
aquele falar tão rápido.
Minha filha!
Se eu sentisse que toda esta minha tristeza
fosse proporcional a tua alegria;
Se eu soubesse que todas estas minhas lágrimas
fossem equivalentes aos teus sorrisos;
não tenhas dúvidas
de que eu me conformaria
e até aceitaria a situação.
Mas a verdade
e que eu já nem me lembro
do teu último sorriso;
já não consigo me lembrar
do teu último momento de alegria!
Estás, a cada dia, mais endurecida
cada vez mais sofrida
cada vez mais distante de mim
e, pior,
cada vez mais distante de ti mesma!
S.Paulo - JIT, 15.12.94.
- Grande dúvida!
Da mesma forma que chegou,
sem que eu soubesse de onde ou por que,
a forte dor no joelho esquerdo se foi.
Não sei
se foi apenas uma impressão,
se, na verdade, eu nunca a senti
ou se ela continua existindo
e eu já a assimilei
como a tantas outras dores antigas.
S.Paulo - JIT, 07.12.94.
- Início do fim?
Pela primeira vez
eu me vi ontem à noite
encostado num balcão sujo
de uma padaria escura de quinta categoria
tomando uma cerveja de pé
e mastigando um daqueles salgadinhos frios
de desde-a-manhã.
Só espero
que ainda não seja
o início do fim.
S.Paulo - JIT, 12.01.95.
- Cinquenta anos.
O mais importante
num homem de cinqüenta anos
é que ele atinge o auge da auto-suficiência:
Ou ele consegue fazer sozinho tudo o que precisa
ou ele só precisa do que consegue fazer sozinho.
S.Paulo - JIT, 13.01.95.
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